EcoFeira do Transition Granja Viana na revista Globo Rural! Agir localmente, pensar globalmente!

Agir localmente, pensar globalmente

Em Cotia, pequenos agricultores sobrevivem cultivando orgânicos e são orientados sobre preservação da natureza e autogestão
por Sebastião Nascimento | Fotos Manoel Marques

 

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Isabela Menezes, do movimento Cidades em Transição, mostra verduras e legumes produzidos por pequenos agricultores

Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC) chegou a ser a maior do Brasil. Na década de 90 do século passado, o então gigante, cujo número de associados ultrapassava 14 mil, entrou em colapso, e os pequenos agricultores da cidade de Cotia, vizinha a São Paulo, principalmente os da comunidade nipo-brasileira, ficaram sem ter onde nem a quem entregar sua produção de verduras e legumes. Alguns recorreram a atravessadores para acesso ao mercado. Era prejuízo somado a prejuízo. E desalento, o que levou muitos à desistência. 

Mais tarde, o movimento intitulado Cidades em Transição (Transition Towns), nascido na Inglaterra, com representações em todo o mundo, teve a ideia providencial de convocar osagricultores para discussão dos seus problemas objetivando a saída do impasse. Entrou na pauta dos cursos a maneira de viabilizar canais de comercialização dos produtos sem intermediação. “Foi ressaltada também a importância da união dos pequenos para a viabilidade do projeto, além do respeito ao meio ambiente e a adoção do cultivo de alimentos orgânicos”, dizem Isabela Maria Gomez de Menezes e Daniela Terrracini, membros do movimento. Elas lembram que Cotia é conhecida pelo esforço dos seus habitantes em preservar as áreas verdes da voracidade imobiliária dametrópole ao lado, o que tornou mais fácil o engajamento dos agricultores. 

O Cidades em Transição ressalta que o projeto é conduzido em conjunto com o Departamento de Turismo da prefeitura de Cotia, a Faculdade Mário Schenberg de Cotia e o Site da Granja. Tem ainda o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que realça as experiências de associativismo para a tomada de decisões coletivas. Joga luz também na autogestão das propriedades. Sem esses parceiros, nada seria possível, segundo Isabela e Daniela, afinal, enquanto alguns transmitem aos agricultores técnicas de plantio e manejo, por meio de cursos, outros lhes fornecem dicas para a concorrência do mercado. Há também os encarregados de divulgar as vantagens da alimentação orgânica para a saúdehumana

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Benedito, Gisele e o filho Kelvin formam a família dias

São perto de 55 os agricultores ligados ao projeto, entre produtores de alimentos e de flores, e participam também artesãos. A quantidade é pequena, porém a conscientização se difunde e outros agricultores frequentam as aulas para se incorporar ao grupo. Todos estão espalhados pelos 324.000 quilometros quadrados de Cotia, famosa também pelo cultivo de rosas e plantas ornamentais

Os agricultores hoje distribuem verduras, frutas, flores e legumes orgânicos em restaurantes, diretamente às donas de casa, e em uma movimentada feira – realizada uma vez ao mês num espaço cedido pela Igreja Santo Antonio, naGranja Viana, em Cotia. O evento é chamado Ecofeira e o desejo de participar é tamanho que os promotores pensam em torná-lo semanal num futuro próximo. A oferta é diversificada. Tem também cogumelosmelpãesmassas eartesanato. Ao menos 500 pessoas passam por lá. 

“Sem agrotóxico”

A família Dias, formada por Benedito, de 45 anos, Gisele, de 42, e o filho Kelvin, de 20, é um exemplo da transição da produção convencional para a orgânica com sucesso. Os pais e avôs deles eram associados da cooperativa e se viram em dificuldades com a falência da CAC. Ao contrário, Benedito, Gisele e Kelvin sobrevivem muito bem, cultivando sazonalmente, entre outros, abobrinhaalho-poróalfaceazedinhabrócolis e cenoura orgânicos. “Plantamos e vendemos de tudo um pouco para nunca faltar dinheiro”, afirma Gisele, lembrando que seus pais e avós cultivavam somente batata de forma convencional. 

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Sorridente, Gisele conta que mudou para o orgânico em 2004. “Começamos a entregar os produtos em cestinhas. Hoje, distribuimos em restaurantes vegetarianos, na Ecofeira e também de porta em porta, eliminando o atravessador.” Segundo ela, alguns anos atrás, o filho Kelvin chegou a “pensar em largar a roça e procurar emprego na cidade”. Além disso, o marido Benedito, na época do plantio convencional, foi duas vezes intoxicado pelos agrotóxicos. Teve até de ser hospitalizado. “A orientação do pessoal envolvido no projeto dos orgânicos foi fundamental. Aderimos e agora o Kelvin quer permanecer na roça, enquanto o meu marido nunca mais sofreu com os agrotóxicos. Veneno aqui é zero.” 

Isabela Menezes informa que o foco do movimento é centrado na resiliência. “Procura-se preparar os produtores para enfrentar as pressões e choques mantendo o equilíbrio.” Ela explica que a ideia do movimento Cidades em Transição é cada sociedade usar a criatividade para promover a mudança. “Treinar comunidades que se adaptem a modelos de transição para reconstruir com urgência sua resiliência.” Mudanças, mesmo diminutas, influenciam no todo, filosofa Isabela. 

Que o diga Milton Yoshito Yamada, produtor de shitake orgânico que iniciou solitariamente a atividade e depois foi um dos fundadores da Associação de Produtores de Cogumelos Orgânicos, que reúne agricultores de dez cidades próximas, como Sorocaba. Segundo Yamada, de 50 anos, cujo pai não suportou a derrocada da CAC e perdeu sua produção, muitos outros agricultores não estavam preparados para enfrentar o mercado, função que era exercida pela cooperativa. 

Faz dez anos que Yamada, que antes plantava crisântemos de corte, passou ao shitake. Atualmente, ele entrega de 900 quilos a 1.000 quilos ao mês para restaurantes paulistanos e à Ceasa (Central de Abastecimento). “Dá para viver tranquilo”, diz, informando que a área de cultivo do shitake tem apenas 200 metros quadrados. 

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Milton Yamada, que produz shitake orgânico, e Lina Kosaka, produtora de flores

Engenheira agrônoma, Lina Kosaka, de 28 anos, foi preparada para atuar na ponta da cadeia produtiva, justamente onde seus avós, que vieram do Japão durante a Segunda Guerra e se associaram mais tarde à CAC, encontraram obstáculos depois que a cooperativa cerrou as portas. Ela comercializa a produção de flores da família, cultivada em Cotia, em bancas próprias na Ceasa de Campinas (SP), em Vargem Grande Paulista (SP)– ali pertinho - e na Ecofeira. Segundo Lina, o aprendizado em Cotia lhe forneceu o alicerce para compreender o público comprador das petúnias,primaverasamores-perfeitos beijos. Em suas bancas, podem ser encontrados também temperos e ervas medicinais. “Minha família produz com afeto e qualidade. Fica mais fácil fazer negócios.”

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