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“Meu sabático não foi nada do que eu fantasiei. Mudar nem sempre é fácil. E é melhor mesmo que seja assim”

 - 17 de março de 2017
Marcelle Xavier tem 29 anos e conta como uma viagem a fez não apenas rever os próprios sonhos e fantasias, como perceber que a mudança que buscava é algo a se fazer todos os dias.
Marcelle Xavier tem 29 anos e conta como a viagem a fez não apenas rever os próprios sonhos como perceber que a mudança que busca é um trabalho diário.

 

por Marcelle Xavier

Sua existência é sobre manter ou mudar? Acho que, de um modo ou de outro, a maioria das pessoas quer viver para transformar. Transformar a si mesmo, impactar positivamente alguém, e quem sabe até o mundo. Mas construir essa jornada nem sempre é fácil.

Para mim também não foi. Foi preciso construir e desconstruir alicerces de quem eu quero ser e o que quero fazer nesse mundo algumas vezes. E foi preciso uma série de experiências, cursos, trabalhos e pessoas cruzando no meu caminho para eu ter coragem de chutar a porta do mundo dos sonhos e finalmente reencontrar o meu.

Foi quando finalmente reparei que o mundo estava ao contrário, algo em mim mudou. A escola, o modelo de trabalho, a motivação das empresas, a economia, e até mesmo quem diria, o amor. Percebi que a forma como conduzi minha vida até aquele ponto seguia paradigmas de uma era que já passou. Percebi que o momento era de transição, minha e do mundo.

Das duas uma: ou eu continuava vivendo minha vida do mesmo jeito, tentando mudar uma coisa aqui e outra acolá, ou me jogava de cabeça na transição

Fui na primeira opção. Tentei a experiência de criar um coletivo com um grupo de pessoas apaixonadas por projetos transformadores. A ideia era boa, mas a falta de organização e foco jogou contra. Depois, tentei juntar pessoas que amo e confio para nos envolvermos em uma transição, mas a dificuldade de abrir espaço para o sonho do outro dentro do meu sonho lentamente nos separou.

Então, pensando em realmente me transformar e quebrar os hábitos que me prendiam, decidi tirar um período sabático. Algo me dizia que eu não conseguiria mergulhar numa transição de vida com a barriga cheia, o carro na garagem, a cama arrumada. E lá fui eu, ainda presa a todos os paradigmas que queria quebrar, tentar — em vão — planejar todos os detalhes de uma viagem feita para me transformar. Como se planejar a transformação fosse possível.

Como qualquer sonhadora, eu tinha a fantasia de que o sabático ia funcionar assim: eu conseguiria patrocinar meu sonho a partir das minhas ideias maravilhosas, conseguiria ficar de graça em diferentes cidades do mundo, motivaria pessoas para viajar comigo e assim não ficaria sozinha do início ao fim, conheceria projetos, pessoas e cidades, ao mesmo tempo que escreveria histórias e rodaria projetos de amor e transição, e de quebra faria alguns cursos por aí. No meu sonhou, eu ia fazer uma viagem descolada, conhecer 30 países, e ainda ganhar dinheiro com isso.

Claro que não foi bem assim, aliás, não foi nada assim.

Sorte a minha que percebi, logo no início da viagem, que a transição é sobre amor e não medo. Nessa jornada, confiar deveria estar acima de planejar, sentir acima de fazer e me entregar acima de controlar. Resolvi seguir meu coração e confiar, mesmo sem saber muito bem o que isso significava.

Ir em busca dos seus sonhos parece lindo nas fotos do Instagram, mas na verdade não é nada fácil. Por vezes o chão te escapa e você não tem onde cair

Você vai ser perder, vai se esquecer de quem era, vai sentir medo e não vai ter aonde colocar as mãos. Mas essa também pode ser a maior beleza dessa busca. Quando você comprar para si aquelas flores que ninguém te deu, quando sorrir no dia que parece que te levaram os dentes, quando aproveitar o escuro para procurar uma estrela cadente.

Meu caminho foi, então, seguir para onde meu nariz apontasse (logo eu, que nunca gostei dessa expressão). Tive a sorte de ter a companhia do meu sócio e amigo Raoni Pereira durante dois meses do meu semestre sabático. Ao contrário do que sonhei, estive em 11 e não 30 países, estive sozinha por alguns momentos em vez de sempre acompanhada, e atravessei o período sem dinheiro e sem patrocínio, aprendendo a superar com criatividade as dificuldades financeiras.

Conheci pessoas e projetos envolvidos com transição, realizei o sonho de fazer um curso de Transition Design na Schumacher College. Eu e Raoni demos uma palestra e um workshop na Grécia, promovemos uma experiência para falar de amor e transição na Itália. E eu fiz um mês de trabalho voluntário para os projetos Grown in Totnes e Reconomy na cidade onde nasceu o movimento de transição. Mas também teve o outro lado.

Também carreguei mala pesada por escadarias de metrô, chorei sozinha quando precisei de um abraço, me perdi com compras de supermercado embaixo de chuva…

Passei alguns dias sem saber onde dormiria na noite seguinte, segurei xixi para não ter que pagar 1 euro no banheiro público, tive discussões por causa de shampoo e farelo de pão, fiquei três semanas sozinha bebendo vinho em frente a uma lareira, fui para o lugar mais caro do mundo sem dinheiro e vivi na pele o que é o universo te colocar no lugar certo e me senti culpada por não estar ganhando dinheiro e sendo produtiva pelo menos uma vez por semana.

Quando me perguntam, eu digo sem medo: viver isso foi muito melhor que uma pós graduação. Foi uma mistura de doutorado informal, projeto de carreira e mudança pessoal ao mesmo tempo, tudo com uma intensidade que eu jamais havia experimentado.

E o meu propósito, que por alguns momentos pareceu vago, começou a ficar mais claro. Entendi que o atual desafio da humanidade é mudar todos os aspectos da sociedade e todos os sistemas dos quais dependemos radicalmente em um período muito curto de tempo. Que o principal aspecto dessa transição começa na mudança em nós, seres humanos, ao nos engajamos em projetos de transformação.

Junto com o Raoni e alguns mentores selecionados, criamos o Movimento Ímpar. Acreditamos que nosso papel nessa história toda é ajudar mais pessoas a libertarem-se de seus muros mentais para resgatar valores, formas de viver e criar em sintonia com essa nova realidade. Não queremos reinventar a roda ou salvar o mundo. Queremos apenas nos engajar em usar nossas habilidades para criar um pedacinho dessa mudança, algo que acreditamos que todos podem fazer. Toda a jornada visa criar uma comunidade experimental para emergir valores e competências importantes para o momento de transição que nos encontramos, principalmente relacionadas ao pensar, sentir e fazer.

A transição não é só sobre criar novos caminhos para um mundo com sistemas em colapso. É sobre transformar a nossa vida em uma experiência de amor

Essa transição, que para mim começou de fato há pouco mais de um ano, está apenas no início. O processo de aprendizado é diário e colocá-la em prática é uma necessidade. Acredito que pessoas engajadas em comunidades criam novas formas de viver que podem ter um impacto global. Pessoas que se engajam não necessariamente porque querem transformar o mundo, mas porque querem transformar a si mesmas, de uma forma divertida, sociável, empoderadora e positiva.

Vivi e vivo a transição para o amor todos os dias, mesmo que na maioria das vezes ela não tenha a beleza e nem as curtidas de uma foto com filtro no Instagram. E melhor mesmo que seja assim.

 

Marcelle Xavier, 29, é publicitária de formação e escritora de coração. Criou o Movimento Ímpar com o propósito de transformar o mundo com o amor, ou ao menos um pedacinho dele.

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