O problema não é o Petróleo - Texto de Mariana Pedreira

O problema não é o Petróleo


Antes de tudo, quero registrar que não estou fazendo apologia do petróleo com este artigo, mas apenas uma provocação para chamar a atenção de um ponto que considero crucial na arena da discussão do tema energia: a intensidade energética da sociedade atual. Ou seja: a quantidade de energia direta e indireta (embutida nos produtos e serviços) consumida por pessoa.
O que quero discutir aqui é:
“O quanto eu consumo de energia para satisfazer minhas necessidades e o quanto esta quantidade vem crescendo ao longo dos anos para uns e o quanto estagnou para outros”.
E não exclusivamente pensar em “como posso substituir o petróleo por outras fontes mais limpas e renováveis”, porém mantendo o mesmo padrão atual de uso e/ou apropriação de recursos.
Por quê? Por que a substituição do petróleo por outras fontes – mantendo o mesmo padrão de consumo atual – poderá mitigar o risco do aquecimento global, porém tem grande potencial de gerar outros problemas ambientais, sociais e econômicos. Seria apenas trocar de problema...
Isto aconteceria porque toda fonte de energia, para ser transformada em trabalho, gera algum tipo de impacto na natureza. A fragilidade da geração de energia elétrica através das células fotovoltaicas, por exemplo, são as baterias necessárias para armazenar a energia. Imagine o impacto no meio ambiente do descarte de milhões de baterias (que contem metais pesados) se pudéssemos substituir todo o petróleo por esta tecnologia! Não teríamos o aquecimento global, mas em compensação teríamos lençóis freáticos contaminados.
Isso quer dizer que não devemos pensar em uma matriz energética menos dependente do petróleo? De maneira nenhuma!
Quer dizer que, além de pensarmos em como será feita está transição de fontes, precisamos pensar em como será a transição para uma vida de menor intensidade energética.
A figura abaixo mostra que, durante mais de 100 mil anos a humanidade aumentou sua intensidade energética em 0,0004 vezes ao ano e, nos últimos 600 anos, este índice passou para 0,5 vezes por ano. Um crescimento de 125.000%
.
Entretanto, mesmo com este grande crescimento do consumo de energia, uma questão imprescindível de se considerar neste quebra-cabeça, é que existe uma grande parte da população mundial que consome menos energia do que necessitaria para satisfazer ao menos suas necessidades básicas. Complicou não é?
Ou seja, vemos que o acesso a esta energia é desigual no planeta. Caso fosse bem distribuída, nossa intensidade energética média seria ainda maior!
O desafio, portanto, é muito maior, visto que não podemos negar acesso a este recurso a fim de aumentar a qualidade de vida de grande parte da população mundial.
Em 2007 o mundo disponibilizou o equivalente à energia contida em mais de 12 bilhões de toneladas de petróleo (tep*), o que resulta em uma média de 1,8 tep/por pessoa (EIA, 2009).
O gráfico a seguir mostra a evolução da intensidade energética do Mundo e também de alguns grupos de países divididos conforme sua participação ou não na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico**- OCDE. A população toda da China, Índia, Brasil, incluída no grupo de países fora da OCDE, apresentou uma média de 1,13 tep/por pessoa em 2007, enquanto os países do grupo da OCDE América do Norte apresentaram uma intensidade energética de 6,34 no mesmo ano. Isto significa que, considerando a população mundial de aproximadamente 6,5 bilhões de pessoas, mais de 5 bilhões delas, incluídas no grupo de países FORA da OCDE, consomem menos do que a média mundial (1,82 tep/pessoa) e as restantes 1,5 bilhões de pessoas chegam a consumir de 3 a 5 vezes mais!

Intensidade energética

Fonte: EIA, 2009
A solução não é atingirmos o patamar de 6 tep/pessoa/ano, mas também não é restringir a todos sem diferenciação. Sabemos que na média dos papíses fora da OCDE tem muita energia a ser utilizada para colaborar com melhora da qualidade de vida destas 5 bilhões de pessoas.
Se considerássemos por exemplo, que 2,5 tep/pessoa/ano seria a intensidade enegética “ideal” para o mundo, já teríamos um acréscimo de necessidade de energia disponível equivalente a mais 4 bilhões de toneladas de petróleo/ano. Isso mesmo considerando que os países com intensidade energética maior que isso, fossem reduzir sua intensidade.
Sob esta ótica, considero que até para o Petróleo haveria lugar na matriz energética, avaliando regionalmente qual seria sua aplicação mais útil e mais difícil de ser substituída, por exemplo.
Nas próximas “escritas”, posso apresentar uma visão geral dos impactos que as demais fontes de energia podem causar.
Assim, será possível termos ferramentas que poderão colaborar com a desmistificação dos assuntos e o amadurecimento das decisões que convergem na criação de nosso futuro.
* tep – tonelada equivalente de petróleo – medida utilizada para uniformizar a quantidade de energia das diversas fontes de energia utilizadas (petróleo, solar, hidráulica, etc)
** Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é uma organização internacional e intergovernamental que agrupa os países mais industrializados da economia do mercado. Tem sua sede em Paris, França. Na OCDE, os representantes dos países membros se reúnem para trocar informações e definir políticas com o objetivo de maximizar o crescimento econômico e o desenvolvimento dos países membros.
Países membro da OCDE: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Coréia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Islândia, Itália, Japão, Luxemburgo, México, Noruega, Nova Zelândia, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Checa, República Eslovaca, Suécia, Suíça, Turquia

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Comentário de Mariana de Oliveira Pedreira em 6 outubro 2010 às 17:30
Prezado Walder, em primeiro lugar, que bom que você leu meu artigo rsrs.
Com relação aos seus comentários:
- sei que o petróleo vai acabar, mas o que quero chamar atenção é que manter o MESMO padrão de consumo em uma sociedade pós petróleo apenas mudará de problema, entende?
- não estou falando em restringir consumo de quem está muito abaixo da média mundial. Muita gente pode e deve aumentar seu consumo per capta e temos que lutar por isso!
Meu ponto é racionalizar o consumo de quem faz subir a média.
abraço
Mariana
Comentário de Mariana de Oliveira Pedreira em 6 outubro 2010 às 17:27
Prezado Ayrton
Recebi sua pergunta da Isabela com relação ao texto "o problema não é o petróleo".
A unidade de energia da fiura/gráfico é Gigajoule/pessoa/ano.
A fonte foi uma apresentação que não me lebro...mas na figura ele cita: adaptado de UNESCO COURIER. qualquer outra dúvida, estou à disposição.
abraço
Mariana
Comentário de Walder Antonio Teixeira em 5 outubro 2010 às 18:41
como exigir economia de energia de uma pessoa que esteve sempre sem energia elétrica, e só agora passou a ser integrada ao sistema?
Como exigir economia de energia de alguém que nunca pode comprar eletrodomésticos e só agora está usando geladeira, aparelho de som, televisão?
Será que o problema está no consumo de energia do cidadão que só usa ônibus por não ter como comprar carro?
Acho que a causa primária é o modelo industrial. Quem mais consome recursos energéticos é a indústria, o comércio e o agronegócio.
Mas é claro que esse fato não tira nossa responsabilidade como cidadão consciente de procurar economizar energia quando é possível.
Comentário de Walder Antonio Teixeira em 3 outubro 2010 às 2:59
É muito delicado falar em consumo alto de energia. As pessoas podem ter a impressão de que são as culpadas, mas há outros grandes culpados como a indústria e o comércio. Mas a discussão sobre que tipo de substituição ao petróleo deve ser feita é importante.
Armazenar energia em grandes baterias em todas as casas é loucura. Mas aquecer água para tomar banho com energia solar é viável e econômico, desde que os materiais usados não sejam perigosos.
São muitos detalhes e temos que estudar caso a caso.
A questão não é substituir ou não o petróleo. A questão é que ele irá acabar.
Comentário de Isabela Maria Gomez de Menezes em 2 outubro 2010 às 2:35
Boa noite Ayrton,
Este texto é da Mariana, vou mandar suas questões para ela, ok!
Abs
issa
Comentário de Ayrton Pacheco Neves em 1 outubro 2010 às 19:10
Prezada Isabela, cometi um erro de digitação logo no início da frase: a palavra é escritora, e não escrotra. Desculpe-me pelo erro,

Ayrton
Comentário de Ayrton Pacheco Neves em 1 outubro 2010 às 19:07
Prezada Isabela Maria Gomez de Menezes,

Minha esposa é escrotra de livro didático de Ciências para crianças e eu a estou ajudando nas pesquisas. Ela gostou muito do seu artigo e quer saber qual a fonte do gráfico de consumo individual de energia que você disponibilizou no artigo. Gostaria também de saber qual a unidade de enrgia usada nesse gráfico, em joules com calorias, se esse consumo é diário ou anual e se você tem os percentuais dos índices da legenda para uma pessoa de hoje, ou seja de 2010.

Desde já agradeço, atenciosamente,

Ayrton

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