Matéria de Jany Vargas para o Jornal D'aqui sobre Michael e Nicole da Florestas do Unicórnios, lugar que nos acolhe tão bem!!

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04 de novembro de 2009
O Planeta Saudável de Michael Harandom e Nicole Roitberg
por: Jany Vargas


A Granja está atualmente vivendo uma época de efervescência na ação coletiva. Há pelo menos cinco grupos se reunindo com regularidade. Dois deles, Transition Granja Viana e o Movimento em Defesa da Granja Viana, têm usado a Oca, um espaço feito de bambu dentro da Floresta dos Unicórnios, para suas últimas reuniões. E foi lá que conversei com Nicole Roitberg e Michael Harandom, pai e filha, os anfitriões, que receberam com uma sopa feita no fogão à lenha, os bem intencionados granjeiros que participam desses movimentos.

A Floresta dos Unicórnios é uma área grande na Fazendinha que Nicole frequentava, quando criança, com a família, durante os fins de semana. Naquela época se chamava “A Chácara” e lá aconteciam os banhos de piscina e muito churrasco. Passaram-se os anos e Nicole foi para os EUA, estudar antropologia.

Enquanto isso, aqui na Granja, seu pai, Michael, realizando um sonho antigo, transformou “A Chácara” num espaço conservacionista, licenciado pelo Ibama, para receber animais apreendidos pelo tráfico ilegal.

Nicole, por sua vez, em meio a uma crise pessoal, fez uma viagem pela região de deserto dos EUA e contou que a amplitude que encontrou ali, o horizonte sem obstáculos, as rochas que faziam parte da paisagem há milhões de anos foram criando nela um sentido de absoluta reverência e uma consciência de que o universo interior de cada pessoa também é feito daquela natureza expandida. Depois dessa viagem, ficou pensando em como poderia traduzir e também proporcionar essa experiência para outras pessoas.

Percebeu que o caminho seria pela estética, pelo encanto, uma vez que “a beleza conversa com a alma. Quando alguém vê algo belo, a respiração pára e, nesse momento sagrado, a mente racional se aquieta e o coração se abre para a nova informação”.

Com isso em mente, voltou para o Brasil e convidou o então vice-reitor da Unipaz, Roberto Crema, para fazer seminários mensais na Chácara.

Numa noite em que eles conversavam, ela pensava num novo nome para o lugar, que, como ela disse, incorporasse uma energia, desse um direcionamento para o trabalho que ela queria realizar ali. Ele falava em Unicórnio, esse animal simbólico, que surge da imaginação e que revela a possibilidade humana de sonhar. Esse ser mágico, que tem um chifre em espiral, que nasce daquele ponto central na testa, que é chamado de terceiro olho, e que representa a união entre os dois hemisférios cerebrais e, em última análise, de tudo que parece separado: oriente e ocidente, misticismo e ciência... e aí pronto! O nome surgiu: a Chácara se transformou em Floresta dos Unicórnios.

Nicole passou então a estruturar cursos nesse sentido de confluência de saberes distintos, a fazer parcerias que possibilitam aberturas, novas visões, encontros e trocas entre culturas diferentes. A ideia dela é quebrar certezas, criar um olhar crítico que procure soluções e que passem, sempre, pela experiência do fazer, com a intenção de contribuir para um Planeta Saudável e uma Cultura de Paz.

O projeto que ela desenvolveu, mais afinado com a experiência que teve no deserto, é a Ecoformação, que acontece anualmente e que “foi criada com o objetivo de proporcionar uma educação transformadora, tendo em vista a ampliação da consciência para uma ética de cuidado e solidariedade com o outro e a natureza”.

E os animais resgatados pelo Ibama? Como diz Nicole, eles não deveriam estar ali, na Floresta dos Unicórnios, e sim em seus ecossistemas e é para lá que devem voltar. Ela quer que a Floresta se torne uma área de soltura para repovoamento das espécies da região e que isso não aconteceu até agora por impedimentos legais. Todos os animais que vivem ali, na maioria aves, são anilhados e os funcionários, treinados pelo Ibama.



E o criador da Floresta? O pai de Nicole?

Michael Harandom usa somente roupas brancas e é muito acolhedor e afetuoso. Ele me conta que foi criado com avós e tios, morou em vários países, em internatos... e que agora, revendo, percebe que já era socialista aos sete anos. Sua avó, quando ia visitá-lo, levava sempre uma cesta de guloseimas que ele imediatamente dividia com os amigos. Ele diz que aprendeu cedo na vida que uma tristeza compartilhada em meio a um ambiente solidário é meia tristeza e que a alegria numa situação assim é dobrada.

Aos quatrorze anos, morou em Israel, num kibutz, onde cada um fazia tudo o que podia pela comunidade. Essa experiência fez com que ele interiorizasse o conceito de que todas as pessoas deveriam ter acesso a uma0 parcela ideal dos bens naturais e dos criados pelo homem e o direito de viver com integridade. Ao sair do serviço militar, ele se viu um verdadeiro pacifista e passou a se ligar a institutos que promoviam movimentos pela paz.

Já adulto, no Brasil, Michael estava trabalhando num lugar em que poderia realmente colocar na prática tudo que pensava. Esse lugar era uma fábrica, a Fersol, indústria química, que ele tinha criado com um sócio.

Quando, em 1995, sob os efeitos da era Collor, a sociedade se desfez e a Fersol amargava uma dívida de 10 milhões de dólares, ele resolveu implantar uma administração participativa e mais sensível que contemplasse as minorias. Começou, então, a se reunir com os funcionários numa modalidade que, depois descobriu, tinha um nome: acordos coletivos e, a partir de uma ideia dele, os salários foram dobrados.

Como ele queria as mulheres contribuindo com sua visão holística, reformulou a linha de montagem para que elas pudessem trabalhar em todos os setores. Atualmente, elas representam mais de 60% dos funcionários.

A Fersol tem como filosofia contratar prioritariamente representantes dos segmentos historicamente excluídos do mercado de trabalho como os afro-descendentes, os homoafetivos, as pessoas com talentos especiais e as pessoas com liberdade assistida. Esses são os nomes que ele considera corretos para designar algumas das particularidades de seus funcionários.

Além dos direitos dos trabalhadores, a Fersol está interessada em garantir os Direitos Humanos. Nesse sentido, só fecharam contrato com seguradoras de saúde que reconheciam, por exemplo, os casais homoafetivos. Desde 2003, a empresa já possibilitava que as mães ficassem seis meses com seus nenês e os pais, dois meses. Isso porque ele considera que a proximidade dos pais nesse início de vida é o que possibilita que as crianças se tornem adultos mais afetivos, mais cuidadosos, contribuindo, assim, para uma sociedade mais fraterna.

Michael acredita que as empresas têm responsabilidades e deveres muito maiores do que colocar produtos bem feitos e por um preço adequado no mercado. Para ele, está nas mãos do empresariado melhorar a qualidade de vida da sociedade. Assim como o Fórum Social Mundial que diz que um outro mundo é possível, a experiência na Fersol aponta para a ideia de que uma outra empresa é possível. Eles se consideram, ali, facilitadores da transformação e Michael afirma que não são um exemplo acabado e, sim, um processo em andamento, como muitos outros.

Para ele, os pilares para a construção de uma sociedade mais justa são: emancipação, liberdade, participação e protagonismo. O conhecimento e a educação são fundamentais nesse cenário. Por isso, foram feitos mutirões de ensino para abolir o analfabetismo e colocaram como meta que todos os funcionários terminassem o segundo grau e até 2015 concluíssem uma universidade.

São realizados e abertos, para os moradores do bairro onde a fábrica está inserida, cursos regulares de política, liderança social, filosofia, democracia, combate à corrupção e ao crime organizado, palestras sobre direitos reprodutivos e planejamento familiar, etc.

Lá há um banco solidário de trocas e muito do que fazem não requer dinheiro e, sim, articulação e entusiasmo. Michael está interessado em contagiar o bairro em que a fábrica está instalada e, assim, afinado com o que disse Gandhi, ser a mudança que se quer para o mundo.

A empresa oferece estes cursos que eles organizam também para outras instituições e foi assim, então, que, certa vez, eles foram realizados na Faculdade e Hospital São Camilo, em SP. O curso foi tão apreciado, que a Faculdade decidiu levar estudantes e profissionais do hospital para oferecer aos funcionários da empresa e aos moradores do bairro exames de vista, AIDS, etc. A comunidade, por sua vez, ficou tão agradecida que foi ao hospital doar sangue. De novo, o pessoal do hospital quis retribuir e ofereceu aos moradores do bairro, que não dispõem de nenhum convênio, a possibilidade de realizar procedimentos médicos necessários no hospital.

Para Michael, todos nós temos condições de fazer coisas maravilhosas e sermos líderes. Ele diz que é como se fôssemos nascentes de água pura. Uns estão com o veio aberto, outros têm grãos apenas de um sopro de vida, de alegria, para garantir a fluidez da água, alguns têm uma pedra obstruindo, outros, ainda, uma montanha. É necessário então mais pessoas para ajudar a remover. A boa notícia é que ele acredita que ninguém está só neste processo, que os parceiros aparecem e que há uma felicidade palpável no dar e receber, na troca, no compartilhar da fartura, em abrir as piscinas das casas para mais pessoas, em tirar os quadros das paredes para serem vistos em museus.

Bom, é assim que fala, pensa, sente e age Michael que só usa roupas brancas por muitos motivos. Entre eles, porque essa cor é símbolo da paz e que lhe parece emitir uma boa energia, envolvendo em luz e claridade os bons pensamentos que ele quer espalhar mundo afora.

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