Caminhar pelas ruas.

Sempre gostei de caminhar pelas ruas. Não é pra fazer exercício. Apenas gosto. Principalmente a noite.

Curioso como uma coisa tão simples possa ter se tornado difícil. Um lugar bom para caminhar deve ter bons atrativos, poucos perigos e poucos obstáculos. Se assim não for, o caminhar se transforma numa aventura sem belos cenários e portanto pouco atrativa até para os viciados em adrenalina. Uma "exclusividade" de quem não tem carro.

Em algum ponto da minha loucura decidi que deveria promover um movimento chamado Transition Towns. De graça. Este movimento cultural, ao invés de lutar (seria justo lutar) contra alguma burrice, sugere que deveríamos nos reunir para repensar nossas relações com os vizinhos, nossas cidades, nossos bairros, nossas ruas e, para estes lugares, visualizar cenários que gostaríamos que existissem daqui a 20 anos.

Uma idéia fantástica: Irlandesa, eu acho. Eu quero promover isso pois eu ainda tenho sonhos. Um deles é ter um bom lugar bom pra caminhar na porta da minha casa.

Saio pelas ruas no lugar onde moro e num primeiro momento acho graça nas coisas que vejo: calçadas de 30 centímetros, degraus de 40 centímetros, postes no meio de calçadas estreitas, calçadas com mato ou mesmo com pequenos e intransponíveis brejos, além de uma indescritível quantidade de situações que criam dificuldades de locomoção até para quem não tem essas dificuldades.

Inevitável pensar nos cadeirantes ! Ou nos mais velhos; ou nas felizes mamães com seus carrinhos de bebê; pessoas induzidas a sentirem-se seguras apenas nos distantes, estéreis e completamente fechados Shopping Centers. Eu nunca vi um entardecer dentro de um shopping center.

Falando nisso, estão fazendo um shopping enorme aqui perto. Estou quase certo de que é uma obra motivada pelo sentimento de culpa com relação às mamães e seus carrinhos.

Das seis salas de cinema eu vou gostar, sejamos justos.

Voltando às calçadas, imagino um cadeirante tentando se locomover nos lugares que descrevi. Percebo aí uma restrição desnecessária a uma possibilidade comum a todos: acumular vivências novas, receber novas impressões. Vivenciar é uma possibilidade contínua, que pertence a qualquer pessoa que ainda possua consciência. Vivenciar é o primeiro passo para a melhor e mais segura possibilidade de obter prazer: contemplar ! Receber boas impressões é a única possibilidade real de acumular uma verdadeira riqueza. Quando percebo que a estupidez e o descaso limitam essa ampla e democrática possibilidade, sou invadido por um sentimento de mobilização e sinto um impulso de querer fazer alguma coisa a respeito. Penso no poder público, na má administração do nosso dinheiro, na falta de projetos para administrar um crescimento desenfreado, crescimento este, fundamentado na grosseira busca de possuir bens de consumo que, em última instância, prometem produzir prazer. Lembro que o verdadeiro prazer nasce dos diferentes níveis de contemplação, penso ... penso ... penso .... e inevitavelmente fico com raiva dos responsáveis pelas coisas simples que não poderiam ser neglicenciadas como, por exemplo, as calçadas.

Influenciado pelos filmes de ação, onde a sede de justiça dos heróis os faz passar por toda a sorte de sofrimento até "salvarem a humanidade", num certo momento pensei nos cadeirantes como os protagonistas de um filme e fico imaginando, numa das cenas, dubles com cadeiras de rodas, demonstrando na prática a potencialidade do desastre que poderia acontecer se alguém, numa cadeira de rodas, tentasse transpor os obstáculos dos quais falava antes. Ou mesmo deixar registrado num filme a perplexidade diante de um obstáculo intransponível que, por lei, não deveria existir. Nem sei se tudo isso é politicamente correto mas ... além do "politicamente correto" ser o primo em primeiro grau da hipocrisia, ver essas cenas talvez movimentasse o lento, burro e distraído "imaginário" dos diversos tipos de líderes que, absorvidos pelo mundo da ganância, perderam a imaginação e a atenção.

Acredito que os donos dos imóveis e os administradores do patrimônio público, eventualmente despertos por cenas inusitadas, passem a sentir o dever de melhorar as nossas ruas. Ou, no mínimo, que as calçadas ridículas das quais são os responsáveis passem a incomodá-los permanentemente. O incômodo dos líderes se tornaria a esperança de nos movimentarmos com um pouco mais de liberdade.

Pelo menos daqui a vinte anos !

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Comentário de Maria Martha Nader em 31 março 2010 às 16:14
Olá Cláudio

Vamos sim conversar - é só marcar.
abs.
Martha
Comentário de Maria Martha Nader em 24 março 2010 às 13:44
falando em idéias malucas, tenho algumas - todas envolvem profundas transformações e um projeto urbanístico que a Granja nunca teve. abs.
Comentário de Claudio Leozzi em 17 março 2010 às 13:30
Vamos continuar com a mesma estratégia, porém usando o ning. Se puderem, avisem aos demais participantes.
Comentário de Claudio Leozzi em 17 março 2010 às 13:29
A Issa é terrível ... não quer dar ibope pro meu blog ... mas pensando bem, não há problema ! O importante é que isso ande. Bjs pras três.
Comentário de DanielaTerracini em 17 março 2010 às 13:23
Claudio,
estamos lendo e pensando. Nos aguarde
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