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Comentário de MarCelo Todescan em 21 junho 2010 às 13:06
Dinheiro não traz felicidade. Ou, pelo menos, não é o único índice para calculá-la. Essa é a constatação da experiência de uma pequena nação no Himalaia, o Butão, situado entre a China e a Índia. O país desenvolveu o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB), nos anos 1970, para orientar seu próprio desenvolvimento, após anos de isolamento e pobreza. Hoje, quase 40 anos depois, países como Canadá, Estados Unidos e Brasil estudam essa nova forma de gerir seus recursos.



O interesse do Ocidente parte da constatação de que o crescimento econômico, medido pelo Produto Interno Bruto (PIB), não é suficiente para garantir qualidade de vida. O novo indicador made in Butão é um contraponto à proeminência da visão econômica da vida e professa um desenvolvimento atrelado à felicidade do povo ou, no caso das empresas, a condições adequadas de trabalho, à consciência social e ambiental da corporação e ao valor humano dos profissionais (ver boxe pág. 21).



Seguindo o exemplo do rei butanês Jigme Singye Wangchuck, que elaborou e aplicou o conceito FIB em 1972, para obter uma boa graduação de felicidade, os países precisam implantar políticas públicas que garantam à sociedade um bom padrão de vida econômica, educação de qualidade, boa saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, bom gerenciamento do tempo, boa governança, acesso à cultura e bem-estar psicológico. A ideia acabou ganhando o mundo: já ocorreram quatro edições de uma conferência internacional sobre o tema, e o Brasil sediará a quinta, em novembro deste ano.



Para a iniciativa privada, um alto índice FIB significa que o desenvolvimento da corporação deve levar em conta o impacto de suas ações para o ser humano e para o meio ambiente.



A explicação é da publicitária Maria Christina Carvalho Pinto, presidente do Grupo Full Jazz Propaganda, uma das principais lideranças brasileiras em prol da adoção das premissas FIB no ambiente corporativo. “Enquanto não buscar um resultado que conjugue finanças, ser humano, comunidade e meio ambiente, a corporação estará cortada em pedaços”, afirma a publicitária.



Segundo ela, o estranhamento diante de conceitos como o FIB é maior nas culturas ocidentais. O que, no entanto, não impede o aumento do interesse das empresas. Esse é o caso da Icatu Hartford, que atua no mercado de seguros de vida e previdência. Com base na leitura de um artigo sobre o assunto, nasceu o interesse pelo FIB e a atual campanha publicitária da organização, conta a diretora de Marketing da instituição, Aura Rebelo.



Os gestores da Icatu entenderam que o conceito se fundamentava em pilares que já faziam parte do posicionamento da marca. “A ideia foi criar um mix entre as dimensões do conforto econômico, meio ambiente, educação, cultura e boa governança.” A resposta do público interno e externo foi tão positiva, afirma Aura, que o conceito ultrapassou a campanha publicitária para transformar-se numa linha de comunicação.



O site da campanha FIB está no ar desde junho deste ano e traz “100 dicas bem-humoradas de pequenos gestos e atitudes harmoniosas para cuidar do bolso, da mente, do corpo e do mundo, num contexto de rede social”, além de informações e atividades interativas. No âmbito interno da empresa, foi explorado o efeito viral da proposta, com a premiação de funcionários pela multiplicação da campanha. “Não vamos tirar do ar”, garante a diretora de Marketing.



Outras empresas, como a Cargill, do setor agrícola e alimentício, e da

PricewaterhouseCoopers, do segmento de auditoria, também estão interessadas no conceito e se movimentam internamente para estudar a viabilidade de sua aplicação no ambiente corporativo. Numa outra ponta, a coordenadora do FIB no Brasil, a psicóloga e antropóloga formada pela Universidade de Harvard, Susan Andrews, defende a ideia de buscar parcerias para realizar projetos de felicidade em corporações.



Susan está à frente da primeira experiência brasileira do FIB no âmbito político-social: um projeto piloto iniciado em abril deste ano na cidade paulista de Angatuba, a 181 km da capital (ver pág. 21).



Progresso humano



A pergunta inevitável é: a riqueza econômica de um país reflete realmente o bem-estar e a felicidade de seus habitantes? Teoricamente, sim. Mas uma análise mais coerente deve levar em conta premissas como justiça social, viabilidade econômica, sustentabilidade ambiental e riqueza cultural, o que nos força a admitir que, em algum momento da história da humanidade, as riquezas produzidas deixaram de ser instrumento a serviço do progresso humano.



Para o professor titular de Economia e Administração no Departamento de Pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Ladislau Dowbor, ao contrário da visão restrita do PIB, índices como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o FIB consideram a atividade econômica como um meio para melhorar a qualidade de vida das pessoas.



“Saúde, educação, cultura, lazer, segurança, é o que queremos da vida, e a economia tem de se colocar a serviço desses objetivos sociais”, assegura o professor, formado em economia política pela Universidade de Lausanne, na Suíça, e doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, na Polônia.



Para Christina Carvalho, a relação com o dinheiro na sociedade atual chegou a uma condição que ela qualifica como esquizofrênica. “Reduzimos o ser humano a um ser regido pelo instrumento que ele próprio criou”, argumenta. A executiva chama a atenção, ainda, para a indispensável reflexão a respeito da possível apropriação inadequada do conceito FIB. “É preciso cuidado ao procurar entender os critérios do FIB para não usá-los de forma ingênua e até frívola“, adverte.



Na mesma linha de pensamento, os estudos empreendidos pelo psicólogo Daniel Kahneman – prêmio Nobel de Economia em 2002 –, com dados estatísticos de diferentes países desenvolvidos, demonstram que o progresso econômico e os bens materiais proporcionam maior conforto e contribuem como fonte de felicidade para populações miseráveis ou pobres. Mas, considerando-se certo poder aquisitivo, o aumento da prosperidade não está mais associado ao aumento da felicidade e do bem-estar. Ao contrário, a excessiva produção de riquezas acentua a diminuição de capital social e a degradação ambiental.



Pobres países ricos



O paralelo esclarecedor entre crescimento das economias e indicadores indesejáveis é traçado por Susan Andrews ao apontar uma relação frequente entre aumento de renda nacional e aumento de taxas de suicídios, consumo de drogas, depressão, crimes violentos, mortalidade infantil e analfabetismo.



Conforme a Organização Mundial de Saúde, a depressão afeta cerca de 340 milhões de pessoas e causa 850 mil suicídios por ano em todo o mundo. No Brasil, são cerca de 17 milhões de depressivos. No Japão, a média de suicídios está entre as maiores do mundo – 25 para cada 100 mil habitantes – apesar do elevado poder aquisitivo da população. As taxas de crime em nível global e regional cresceram constantemente entre 1980 e 2000, aumentando cerca de 30%, segundo as Nações Unidas.



No caso brasileiro, o crescimento médio real anual superior a 3% nos últimos anos, entre 2001 e 2005, veio acompanhado de uma explosão no consumo de psicotrópicos, conforme pesquisa do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas.



Recentemente, apesar de o desempenho da economia no ano passado ter apontado uma expansão de 5,4% do PIB (Produto Interno Bruto), o crescimento e as políticas de inclusão ainda não são suficientes para modificar expressivamente os indicadores sociais. Embora as taxas de mortalidade infantil e analfabetismo venham caindo, o número de cidadãos brasileiros iletrados em 2007 totalizava 14,1 milhões de pessoas ou 10% da população com mais de 15 anos. O número é claro na referência à exclusão social e deixa evidente que o FIB brasileiro não tem aumentando na mesma velocidade que o PIB.



Sociedade suicida



Historicamente, o ser humano vem se desligando de suas raízes com as culturas ancestrais. O elo de afeição e comunhão com a natureza, presente nos ritos xamânicos, indígenas, celtas e orientais, assim como a consciência da interdependência com a terra, perdeu-se no caminho que fez prevalecer a crença de que a capacidade racional tornaria o homem superior.



No âmbito da evolução do trabalho e das corporações, a Revolução Industrial é o primeiro pressuposto histórico que evidencia essa ruptura, com o modelo de racionalização do trabalho. Com a mecanização dos sistemas de produção, no início do século 18, o homem perdeu a relação com o fruto do seu trabalho, e a moeda tornou-se o instrumento máximo nas relações socioprofissionais. “Aquele capitalismo que tinha fundamentos humanos foi jogado no lixo”, observa a publi-citária Christina Carvalho.



Num momento posterior, a devastação provocada pela 2ª Guerra Mundial e a iniciativa norte-americana de investir na reconstrução dos países europeus, com a adoção do Plano Marshall, conduziram ao que pode ser chamado o embrião da globalização, com a adoção de novos fundamentos para a economia moderna. Na Conferência Internacional de Bretton Woods, nos Estados Unidos, em 1944, foram forjados os instrumentos para se estabelecerem os atuais padrões financeiros mundiais e a hegemonia ditada pelo PIB.



O crescimento econômico verificado no cenário pós-industrial não foi equivalente ao desenvolvimento social, uma vez que este pressupõe distribuição de renda. Por isso, assinala Christina, é necessário refletir para se ter um diagnóstico claro daquilo que impeliu a sociedade capitalista ao que ela chama “postura suicida, sem consciência da nossa absoluta interdependência com a natureza”.

Medida de bem-estar



Se o crescimento econômico contribui para promover o bem-estar dos mais pobres, o PIB naturalmente integra o elenco de variáveis do FIB. Mas vale ressaltar diferenças e acréscimos fundamentais que o novo conceito propõe.



– Reconhecer distinções de natureza qualitativa sobre as formas de geração de riqueza. A prostituição, por exemplo, pode gerar riqueza, mas não bem-estar.



– Ampliar o espectro da produção de riqueza, ultrapassando as fronteiras das transações econômicas. Um bem de produção, sem utilização efetiva, como um equipamento agrícola parado, por exemplo, não deve ser contabilizado como riqueza. Da mesma forma, recursos naturais, humanos e sociais devem fazer parte dessa conta.



– Tempo livre e trabalho voluntário contam como fatores produtores de felicidade e bem-estar. Trabalhos domésticos, cuidados com crianças e idosos, por exemplo, muitas vezes não são remunerados, mas executados por motivação acima de ganhos financeiros.



– A distribuição de renda desigual e a injustiça social são fatores decisivamente negativos para a felicidade, uma vez que mensurar o consumo de bens e serviços em comparação com a prática alheia pode revelar grandes abismos.



– Redes sociais, laços afetivos com amigos e familiares, segurança, liberdade e criatividade transcendem bens e, depois de alcançado certo nível de renda, não aumentam necessariamente com um consumo maior.



Angatuba: experiência feliz



A pequena cidade de Angatuba, no interior paulista, a 181 km da capital, não se tornou o projeto pioneiro do FIB no Brasil por acaso. O prefeito José Emílio Lisboa já vinha colocando em prática iniciativas para melhorar a qualidade de vida local, como implantar coleta seletiva de lixo e criar uma usina de etanol para produzir combustível para a prefeitura. O índice de satisfação na comunidade chega hoje a surpreendentes 89%.



Ao visitar a usina de etanol, a coordenadora do FIB no Brasil, Susan Andrews, que também preside o Parque Visão Futura, uma ecovila autossustentável em Porangaba, identificou elementos estimulantes para incluir a cidade no programa iniciado no Butão. A “revolução” começou em abril deste ano, com uma campanha nas escolas e a divulgação dos conceitos de ambiente e vida saudável na comunidade.



Os primeiros resultados – mensurados por meio de 450 questionários, aplicados numa população de 21,5 mil habitantes – apontam para os índices: 89% das pessoas estão satisfeitas com qualidade de vida, 80% com o relacionamento familiar, 94% com a saúde e 73% com a educação. O aterro local só recebe lixo orgânico, a rede pública de saúde pratica medicina ayurvédica (ciência medicinal de origem indiana), 100% do esgoto é coletado e tratado, e as pessoas deixam as portas das casas abertas.



Esse protótipo do FIB brasileiro, apresentado na I Conferência Nacional, realizada em outubro deste ano em São Paulo, chamou a atenção do secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente da capital paulista, Eduardo Jorge, que sugeriu, inclusive, a possibilidade de adoção do índice em subprefeituras da metrópole, como Pinheiros e Parelheiros, como política para a próxima gestão.



colaborou Daniela Lessa



Felicidade made in Butão



A experiência do Butão é a alma de um novo paradigma de sociedade, que considera que a riqueza de um país não deve limitar-se aos aspectos econômicos, mas também indicadores ambientais, cultu-rais, psicológicos e espirituais.



Em linhas gerais, o sucesso do país advém, da aplicação de práticas alinhadas a um desejo realista de ser feliz. Ao contrário do que se poderia supor, o país asiático esteve longe de ser um paraíso até o início dos anos 1970. Vítima de uma política de intenso isolamento, o Butão chegou a ter os mais elevados índices de pobreza, analfabetismo e mortalidade infantil do mundo.



Com a abertura econômica, em 1972, o recém-empossado rei Jigme Singye Wangchuck decidiu pela adoção de um novo modelo para criar políticas públicas capazes de garantir melhor qualidade de vida para a população. Sua crença: a felicidade do povo deve ser o propósito da governança.



Após essa orientação, o salto nos indicadores econômicos do país foi tão significativo que chamou a atenção da ONU (Organização das Nações Unidas) e vem provocando acaloradas discus-sões na comunidade internacional e conquistando entusiasmados adeptos da comunidade acadêmica, dos governos e corporações, ainda que evidencie a inadequação do atual modelo econômico pós-industrial.



Cálculo da felicidade



Para melhor compartilhar a rica expe-riência, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) criou o Centro de Estudos do Butão, divisão de pesquisas que reúne especialistas de todo o mundo para elaborar o índice e práticas de governança capazes de permitir a aplicação do FIB mundialmente.



O resultado é um elenco de nove indicadores principais, subdivididos em 173 variáveis objetivas e subjetivas, num modelo similar ao do IDH.



Segundo o vice-presidente do Conselho Nacional do Butão, Dasho Karma Ura, que assumiu também a presidência do Centro para os Estudos do Butão, uma das primeiras considerações a ser feita diz respeito ao fato de as relações humanas e os ecossistemas naturais não serem mensurados quando se contabiliza o crescimento econômico de forma isolada.



Com orientação semelhante à da expe-riência butanesa, Canadá, Inglaterra e Tailândia já experimentam a aplicação de indicadores alternativos que incluem dados objetivos e subjetivos.



No Fórum Mundial de Istambul, em 2007, representantes das Nações Unidas, Banco Mundial, OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), Comissão Européia e Orga-nização para a Conferência Islâmica ela-boraram uma declaração conjunta na tentativa de avançar na proposta do novo modelo de medição da felicidade.

FIB no Brasil



O interesse de segmentos da sociedade brasileira em conhecer e aplicar os princípios do FIB é uma das razões que levaram à escolha do País para sediar a 5ª Conferência Internacional do FIB, já marcada para novembro de 2009 (ver pág. 16), em Itaipu. A decisão foi anunciada no último encontro, realizado no mês passado, no Butão. Eventos anteriores aconteceram também no Canadá e na Tailândia.



Para a coordenadora do FIB no Brasil, Susan Andrews, uma das formas de preparar o evento é formar novos grupos de discussão no País, especialmente sobre temas como consumo, susten-tabilidade e buscas sociais. Algumas das questões fundamentais são: “Como persuadir as pessoas a adotarem um novo paradigma ético que rejeite o consu-mismo? Como convencê-las de que o paradigma de crescimento ilimitado num mundo finito é insustentável e injusto com as futuras gerações?”.



De acordo com a coordenadora do FIB, é preciso refletir sobre como começar um processo de internalização dos valores dos quais falamos, de mudança de modo de vida e de comportamento, levando-se em conta que a felicidade individual é alcançada pela felicidade e pela ação coletiva.

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