Artigo de Rogerio Ruschel, publicado na Revista Circuito

Generosidade, o valor fundamental para a sustentabilidade da Granja Viana

Por Rogerio Ruschel (*)

Publicado na revista Circuito, edição setembro de 2009, link:
http://www.revistacircuito.com/117/1819txt.html

Já não restam dúvidas científicas de que o desenvolvimento sustentável é o único modelo capaz de evitar a degradação das condições de vida e, finalmente, a inevitável extinção de várias espécies de flora e fauna do planeta, entre as quais provavelmente a do Homo Sapiens, isto é, eu, você e nossos descendentes.

Temos que nos preocupar com isso, é claro, mas para salvar o planeta precisamos começar salvando o ambiente em que vivemos, o local onde habitamos. Então o que fazer? Quais são os valores necessários para termos uma Granja Viana Sustentável, que preserve não só o meio ambiente do bairro, mas também nossa herança afetiva - identificada por pesquisa do Rotary Club de Cotia em 2008 - e a qualidade de vida do granjeiro, que se auto-define como simples, amante do verde, “caipira”, educado, bom garfo e que aprecia os amigos?

Não tenho todas as respostas, mas suspeito de algumas. Para buscar a sustentabilidade, uma comunidade deve adotar como padrão de comportamento ser ambientalmente correta, socialmente justa e econômicamente viável – o conhecido triple bottom line. Mas entendo que, na construção de uma Granja Viana mais sustentável (ou menos “selvagem” como está se tornando), temos que acrescentar uma qualidade humana em risco de extinção chamada Generosidade – e que a Generosidade é o quarto elemento do triple bottom line.

Generosidade é a qualidade do que é generoso, pródigo, do que perdoa facilmente, nobre, leal - a virtude de quem acrescenta algo ao próximo. Generosas são tanto as pessoas que se sentem bem em dividir algo com mais pessoas porque isso as fará bem, tanto quanto aquelas pessoas que dividirão bens tangíveis ou intangíveis com outros, sem a necessidade de receber algo em troca. É o contrário da Ganância.

No conceito “socialmente justo” da sustentabilidade estão incluídos aspectos de fundamental importância como o combate à corrupção, a construção de valores humanistas, o respeito a direitos e deveres, a valorização da ética, a exclusão do analfabetismo, a redução das diferenças sociais, etc. Mas, se quisermos ter uma Granja Viana Sustentável, teremos que incluir outros aspectos socialmente
desejáveis que requerem o exercício da Generosidade, tais como a educação de não buzinar, a gentileza de ceder espaço, o respeito com os animais, pedir licença e agradecer, a nobreza de cuidar também do “verde” comunitário, a elegância de saber ser simples, a finesse de evitar o exibicionismo, o esforço para fazer e manter amigos, o compartilhamento de valores comunitários e outros. Porque estes aspectos de comportamento individual são os que, de fato, caracterizam os granjeiros.
“Generosas são tanto as pessoas que se sentem bem em dividir algo com mais pessoas porque isso as fará bem, tanto quanto aquelas pessoas que dividirão bens tangíveis ou intangíveis com outros, sem a necessidade de receber algo em troca. É o contrário da Ganância.”

No livro “Princípios de Filosofia”, René Descartes apresenta a Generosidade como “uma despertadora do real valor do Eu”. É filosófico, claro, mas é simples: a Generosidade é uma qualidade de quem coloca os interesses de terceiros no mesmo plano dos seus interesses pessoais se isto for necessário para resolver um problema ou dilema que aflige a todos, a busca pelo entendimento. Não é exatamente disto que nossa Granja Viana Sustentável necessita? Na constituição brasileira isto se chama “interesses difusos” - aqueles de interesse do conjunto da sociedade – e são inalienáveis. Ou seja: talvez até mesmo em respeito à Constituição, a Generosidade deveria ser preservada como um dos fundamentos da comunidade granjeira, e a Ganância deveria ser execrada porque ofende nosso direito coletivo “histórico” e cultural de sermos simples, amantes do verde, “caipiras”, educados, bons
garfos e apreciadores das amizades – nossa identidade comunitária.

Por isto, a construção de uma Granja Viana Sustentável - ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável – requer o altruísmo individual da Generosidade como valor de interesse coletivo. Requer dos granjeiros compreenderem, receberem com paciência e “re-educarem” os novos moradores que chegam estressados de São Paulo, aos magotes imobiliários. Temos que invocar os valores que os pioneiros trouxeram no tempo das ruas sem asfalto e solidariamente compartilhá-los com os recémchegados – até porque se não o fizermos, poderá acontecer o contrário, vamos todos virar “paulistanos estressados”.

Então, todos aqueles que se consideram “granjeiros da gema” têm que dar o exemplo de nossos valores para os novos moradores nessa era da invasão imobiliária. Devemos mostrar o que é ser um “granjeiro” através de pequenas atitudes como continuar evitando “asfaltar” jardins mesmo que dê trabalho para varrer, participando de campanhas e movimentos de interesse comunitário mesmo sendo pessoas muito ocupadas, denunciando devastadores ambientais mesmo que sejam pessoas importantes, prestigiando o comércio local para que tenham preços e produtos cada vez mais competitivos, incentivando boas práticas mesmo que não sejam de pessoas conhecidas e, é claro, convidando novos moradores para um dedo de prosa e vinho.

Mais do que isso, poderíamos mostrar para eles nosso sentido de união comunitária, um gesto de altruísmo generoso. Uma sugestão bem atual: porque não paramos de só reclamar do trânsito da Raposo Tavares (a qual ocupamos com uma pessoa em cada veículo) e tomamos uma atitude concreta para minimizar este problema, através de um programa “granjeiro” de carona seletiva? Será que não podemos fazer nada enquanto o “governo” não decidir nos abençoar com uma solução (“salvadora”?) de 2 bilhões de reais com a construção de um monorail ou assemelhado? Teríamos forças para invocar nossos mais profundos valores de convivência amigável, romper a preguiça e a inércia e implantar um sistema de carona solidária? Será que precisaremos de uma lei que nos obrigue a ter bom senso? Será que os condomínios, que se justificam por prestar serviços para facilitar a vida dos moradores, não poderiam ter a generosidade inteligente de tomar esta iniciativa?

Pois é, estimado(a) leitor ou leitora, se você ainda não percebeu a importância da Generosidade como parte da essência de uma vida sustentável na Granja Viana para a preservação dos valores que cultuamos, basta pensar no seu oposto, a Ganância, tomando conta de tudo por aqui. Com certeza você vai concordar comigo que a Generosidade realmente é uma das coisas que a Granja Viana Sustentável necessita, o quarto elemento do triple bottom line granjeiro.

(*) Rogerio Ruschel é granjeiro há 20 anos, rotariano, consultor em sustentabilidade socioambiental, um idealista feliz, talvez um sonhador. E quer continuar sendo.
Contato: rogerio@ruscheleassociados.com.br

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